Paula é uma mulher como tantas outras.
Alta, magra, morena, olhos castanhos escuros expressivos, lábios sempre rosados num sorriso.
É uma mulher de luta, com garra, enfrenta a vida de frente e sem medos. Faz-se ao mundo, aquele mundo que é só seu, que domina, que controla sem ser necessário mais que um pensamento ou olhar.
Todavia quando o mundo não é só seu, quando a sua família, entes queridos ou amigos chegados estão envolvidos, toda ela é emoção, toda ela se divide em mil e, frágil, deixa-se levar por forças superiores, nem sempre para onde deseja.
Paula tem dois filhos gémeos com onze anos, a Maria e o João, os dois fisicamente tão parecidos e simultaneamente tão espantosamente diferentes. Maria é como o pai, seu ex marido: calma, virada para si mesma, ama muito, mas põe-se sempre a si própria em primeiro lugar. As suas necessidades têm que ser sempre prioritárias, os seus quereres também. João ressente-se disso. É mais parecido com a mãe: é alegre, emotivo, sempre pronto para os outros e muito pouco preocupado consigo mesmo. Maria dificilmente chora, mesmo no colo da mãe, João está sempre à procura de mimo e chora em qualquer situação, tanto de alegria como de tristeza. Maria é uma excelente aluna, o João nem por isso.
Depois da difícil separação dos pais, em que o seu núcleo duro se desfez, as crianças tiveram reacções radicalmente opostas. A filha de Paula guardou os seus sentimentos e disse alto e bom som: "prefiro ver-vos separados e felizes do que juntos e tristes". Continuou a sua vida como se nada fosse, fechando-se cada vez mais na sua concha e seguindo a sua vida de criança estudante, como se de uma adulta se tratasse. O seu filho chorou muito, praguejou, virou-se contra o pai quando percebeu que a mãe tinha sido trocada por uma namorada nova. João, no alto dos seus onze anos, não entendia como é que um homem poderia deixar uma mulher tão linda como a sua mãe porque se tinha apaixonado por uma colega de trabalho. João, no seu coração de criança, ainda acreditava em contos de fadas e no "viveram felizes" para sempre. Deveria ser assim a sua família e fez juras de "morte" à outra mulher que lhe roubou a felicidade. Tornou-se muito agarrado à mãe, como se da sua sombra protectora se tratasse. Regrediu emocionalmente, os seus estudos ficaram prejudicados e com alguma dificuldade passou de ano.
As sempre ansiadas férias grandes este ano passam devagar. Casas diferentes para as crianças, rotinas diferentes de Verão, destinos de descanso diferentes do habitual. Paula optou por levar os filhos com ela duas semanas para a aldeia dos seus pais, onde entre primos e família as crianças se sentiam aconchegadas. O seu ex marido decidiu passar duas semanas num destino tropical, com a actual companheira e com os filhos de ambos, quatro crianças no total, desconhecidos que disfarçavam e se tratam como família só para "agradar".
Estes quinze dias sem os seus filhos custam muito a Paula a passar. Todos os dias o João liga à mãe a fazer queixa dos outros dois rapazes, filhos da namorada do pai, que têm dez e treze anos. A Maria pouco fala, segundo o irmão passa o tempo todo agarrada a um livro estendida ao sol.
Paula sabe que os filhos estão em desequilíbrio total, tanto um como o outro. Desespera por nada poder fazer, afinal o pai tem todo o direito a estar com as crianças, mesmo que de forma não pensada e egoísta. Esse é o seu maior defeito: o seu eterno egocentrismo. Nunca na vida Paula apresentaria um novo namorado aos filhos ao fim de três meses de separação. Dará pelo menos um ano de intervalo para assumir perante os seus rebentos que está a reconstruir a sua vida sentimental. Na sua opinião é uma questão de respeito para com as crianças, de saber cuidar, de saber estar, é um dever que como mãe tem para com elas. O seu ex não pensou assim. Aliás, ela cada vez mais acredita que o seu ex não pensa.
Três anos de namoro e mais treze anos de casamento terminados. Por uma paixão "adolescente". Por um impulso. Ela não o prendeu... deixou-o voar.
Neste momento concentra-se nos seus filhos, em minimizar as consequências de um ano de caos familiar, e acima de tudo em si mesma. Paula concluiu que tem que continuar a ser a mulher de luta que sempre foi, mas desta vez em todas as áreas da sua vida. Deixar a emoção entrar mas não dominar os seus actos.
Espera que as férias terminem e que Maria e João voltem para os seus braços. Acabou de saber que foi promovida no trabalho e que vai iniciar novas funções na empresa em Setembro. Tem um amigo de longa data que tem sido o seu ombro e o seu amparo... começa a ver esse homem como alguém que poderá ocupar um lugar (ainda) maior no seu coração. Quem sabe... num futuro que um dia irá chegar.
Vai com calma e sem pressa desta vez. Aprender com os erros é uma das suas maiores virtudes.
E mesmo com o coração dorido, avança para a vida com um sorriso.